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50 ANOS DE 1964 DESPERTAM LOBOS EM ‘DEMOCRATAS’

O aniversário de 50 anos do golpe militar de 1º de abril de 1964 mostrou os lobos que existem dentro de personagens que se classificam como democratas.

Um dos primeiros a surpreender em sua compreensão pelo movimento que quebrou o ciclo democrático por 21 anos, cassou 174 parlamentares, extinguiu partidos políticos, perseguiu, torturou e matou militantes de organizações democrática e de esquerda foi o colunista Arnaldo Jabor, da Rede Globo. Polemista com verniz de liberal, ele escreveu que “merecemos” o estado de exceção que as Forças Armadas impuseram ao País. Para ele, as organizações populares não tinham compromisso com a democracia, mas apenas em tomar o poder.

Seguiu também pela linha de culpar o público pelo golpe o blogueiro Reinaldo Azevedo, que tirou de seu saco de maldades o argumento clássico dos golpistas. Ventríloquo da direita, Azevedo cravou que muitos dos apoiadores do presidente João Goulart queriam “implantar uma ditadura comunista no Brasil”. As eleições presidenciais marcadas para 1965, como o então pré-candidato Juscelino Kubistchek como favorito, ele, é claro, nem fez questão de mencionar.

Membro da Universidade de São Paulo em 1964, tendo sido cassado do cargo de professor anos depois, o ex-presidente Fernando Henrique deu uma derrapada ao falar sobre o tema. Com o intuito de desgastar a presidente Dilma Rousseff, ela a comparou a Jango, primeira vítima do golpe militar. Pelo mau gosto do paralelo, o que ficou foi um pitaco de FHC na direção da desestabilização do governo. Após Jango, afinal, veio o caos – e foi essa suspeita que ex-presidente deixou no ar.

Visto como um quase democrata, o ex-governador de São Paulo Paulo Egydio Martins revelou ao jornalista Geneton Moraes Neto, da Globo News, que sabia bem mais sobre os porões do regime do que se permitira declarar até aqui. Ligado ao então presidente Ernesto Geisel, Paulo Egydio afirmou que fora informado pelo então secretário de Segurança Erasmo Dias de casos de torturas em presos políticos e chantagens sobre comandantes militares, mas preferiu não interferir. “Eu delegava poder para isso”, esquivou-se.

O jurista Célio Borja, que chegou a ser juíz do Supremo Tribunal Federal, fez a alegria do jornal Folha de S. Paulo em entrevista na semana passada. Ele sustentou a tese de que, simplesmente, não houve uma ditadura militar no Brasil, mas apenas “governos de plenos direitos”. Para uma publicação que professa o termo “ditabranda” para classificar o regime militar, nada mais adequado

Os 50 anos do golpe não serviram para que, além da Folha, também o jornal O Estado de S. Paulo fizesse qualquer autocrítica sobre sua participação no apoio à quebra da democracia. Ambos os jornais participaram ativamente a campanha pela desestabilização de Jango na Presidência da República, saudaram a tomada do poder pelos militares e, em seguida, procuraram dar a maior legitimidade possível à nova situação. A Folha, como se sabe, chegou a emprestar carros de distribuição de jornais para o transporte de presos políticos para sessões de tortura. Mas não foi desta vez que os jornais procuraram se redimir de seu casamento com a tirania.

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